quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Vende-se prédio na praia junto à ponte do Livramento

NOTA: este post foi revisto e corrigido em 9 de Dezembro de 2011.

Numa das minhas deambulações pela Internet encontrei uma pequena relíquia na Gazeta de Lisboa de 1815. Ei-la:


Fonte: Gazeta de Lisboa, Edições 1-152 (e-Livro Google) Na officina de Antonio Correa Lemos., 1815


Enquadramento: "foi no ano de 1715, que o primeiro jornal oficial português iniciou a sua publicação. Embora seja geralmente conhecido como "Gazeta de Lisboa", ao longo da sua publicação tem ostentado títulos muito diversos. (...) No início do reinado de D. Maria I, no dia 4 de Agosto de 1778, a "Gazeta de Lisboa" reapareceu, conservando este título até 30 de Dezembro de 1820." (ver história completa em http://purl.pt/369/1/ficha-obra-gazeta_de_lisboa.html)

Apontamentos: os nomes dos lugares estão a itálico. É o caso de Villa de Setúbal, que, de facto, só foi elevada a cidade em 1860. O anúncio pretende vender um prédio "de consideração", livre de encargos ("fôro ou pensão") situado "na praia junto à ponte do Livramento". A ponte ligava as duas margens da ribeira do Livramento.
A antiga ribeira do Livramento teria, decerto, algumas pontes, mas a mais importante e a única digna de nota era certamente a que estava junto à praia e era designada de Ponte do Livramento ou do Carmo. Esta última designação tem como origem a ponte ficar junto ao antigo convento da Venerável Ordem Terceira do Carmo da Cidade de Setúbal (http://www.otcarmosetubal.org/historia01.html), do qual só resta uma capela, pois foi destruído pelas ondas que se seguiram ao devastador terramoto de 1755.
Do espólio do fotógrafo Américo Ribeiro consta a seguinte fotografia (que mostra a ponte do Livramento) que mostra a ponte ligando a Porta Nova, uma porta que terá sido aberta na primeira muralha de Setúbal para ligar a parte velha da vila à nova, ou seja, a Rua dos Sapateiros (actual Rua Augusto Cardoso) à outra margem (estou em crer que à Rua Fran Paxeco):


A foto está datada de 1890. A ponte do Livramento ou Carmo (recorde-se que o "templo" de Nossa Senhora do Livramento, ali perto, foi tomado pelos carmelitas descalços em 1655) ficava situada mais a sul, junto à praia, como alguns amigos tiveram a amabilidade de me assinalar e corrigir.

Veja-se a localização neste mapa de Setúbal de 1820 (assinalado com um círculo sombreado) da ponte do Carmo ou Livramento:

Estaria situada muito perto do sítio onde hoje está a fonte do Centenário (vulgo Fonte Luminosa ou "das Ninfas").

As guerras as guerras liberais (1828-1834) deixassem a sua marca. Sabe-se que em 8 de Abril de 1835, a Câmara de Setúbal recomenda ao Engenheiro Cláudio José Lagrange Monteiro de Barbuda (1803-1845) que continue a obra da ponte do Livramento, parcialmente demolida para evitar ataques realistas.
As lavadeiras aparecem também junto a outra ponte, mais pequena, junto ao cruzamento do centro comercial S. Julião, em frente à Capela da Ordem Terceira de São Francisco, numa foto do mesmo espólio (nesta vê-se outra ponte que estou em crer que seja a de Jesus).
Outra foto de Américo Ribeiro mostra a ribeira a ser entubada perto do Bonfim, em 1936. Hoje em dia a ribeira tem outro nome: esgoto da Avenida 22 de Dezembro.
Diz-nos Maria da Conceição Quintas que "a Alameda da Praia, entre a ponte do Livramento e o quartel do Cais, foi mandada calcetar e terraplanar quando era presidente da Câmara Jacomo Maria Ferro, nos anos de 1848 e 1849".
Almeida Carvalho - citado por Maria da Conceição Quintas - diz-nos que, por volta de 1854, Manuel José Neto, “homem de negócio, trabalhador e empreendedor”,  foi "estabelecer uma sua fábrica numa casa situada na Rua da Praia, próxima da ponte do Livramento, do lado do norte e quase junto ao esteiro, ou ribeiro, da mesma denominação"  Ainda em 1855, também, segundo Almeida Carvalho, “Manuel José Neto começou fazendo progressos e obtendo bons lucros [nas conservas de peixe pelo método Appert] [...], próximo à ponte do Livramento ou do Carmo”.
Seria portanto, uma zona importante ligada ao comércio e indústria, perto da praia e do rio.
O prédio que estava anunciado para venda tinha "grandes casas", "dois pátios", "dois fornos" e "um poço". O dono "não tem dúvida de o vender a pagamentos largos". Penso não estar a especular se disser que se tratam de pagamento a prestações. Uma das minhas minha bisavós (nascida em 1911) usava muito esta expressão "não tem dúvida", quando se queria referir a algo que poderia parecer mal, mas afinal "não tinha dúvida", estava bem. Cheirava uma fruta, por exemplo, e se dizia "não tem dúvida", em jeito de interjeição, era porque era comestível.
O dono do imóvel para venda era "José Felippe da Luz", o qual, conforme consegui apurar, era dono de uma fábrica de estamparia de algodão em Rio de Mouro, Sintra. Tinha casa na Rua dos Fanqueiros, n.º 158, em Lisboa. Nesta rua estavam situados os "Mercadores de Lançaria ou Fancaria, destinando-se os sobejos della se os houver, às lojas de quinquilharia" (http://toponimia.cm-lisboa.pt). Na altura a rua teria ainda o nome de Rua Nova da Princesa, mas a presença dos fanqueiros (lojistas de fazendas de linha de algodão, de lã, etc.) deu um nome popular à artéria da baixa pombalina, nome esse que viria a ser oficializado em 1910. Sinal de alguma riqueza será o facto deste José Felipe da Luz ter oferecido um cavalo para o serviço de D. Maria II, Rainha de Portugal, para a remonta estabelecida em Alcântara.
Na Revista popular: semanario de litteratura e industria, lê-se o seguinte: Depois dos produtos da fábrica de Alcântara achamse os tecidos da fábrica dos srs. Salazar Leal e Comp., nos Olivaes, e logo a diante os da fábrica de Rio de Mouro, pertencente ao sr. Filippe José da Luz. Neste estabelecimento a chita [tecido de algodão estampado a cores] é estampada á mão. No seu género é uma fábrica excellente. Consta-nos que exporta muito para Hespanha.

Hoje, na mesma morada, Rua dos Fanqueiros n.º 158, ficam situadas as lojas das confecções Montebranco, como mostra esta imagem do Google Maps:



Resta saber se o prédio do Livramento terá sido vendido e o destino dado ao mesmo terá tido sucesso...

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Um bilhete para Lisboa Barreiro, por favor!

Numa época em que se fala de novo aumento nos transportes públicos deixo-vos uma curiosidade histórica: uma tabela de preços das carreiras de barco a vapor que faziam o transporte de passageiros nos rios Tejo e Sado em 1839.


Ir à popa, a parte traseira do navio, custava o dobro de viajar à proa. Partindo do princípio que os preços da tabela estão em réis é possível fazer algumas contas interessantes.

A viagem mais cara entre Lisboa e o Barreiro custava 100 réis, o que corresponde a 10 centavos ou 0,1 escudos ou 0,000498797897 euros. Multiplicando este valor pelo coeficiente de desvalorização da moeda (a tabela foi actualizada por um despacho muito recente) que é 4335,60 chegamos à seguinte conclusão: em 1839, o bilhete mais caro para a travessia Lisboa-Barreiro custava 2,16 euros. O mais barato custava metade desse valor, 1,08 euros. Actualmente a travessia custa 2,10 euros. Lembro que em Julho a mesma viagem custava 1,85 euros.


A viagem entre Setúbal e Álcacer do Sal custava 360 réis (7,79 euros). Hoje em dia, só a travessia de ferry entre Setúbal e Tróia para um carro ligeiro de passageiros custa 11 euros (e o bilhete de passageiro 2,50 euros).


Não tenho inveja dos portugueses de 1839, que deviam viver em condições bem mais difíceis do que as actuais, mas não me importava nada de dar um saltinho àquela época e atravessar o Tejo de vapor por pouco mais de um euro, mesmo que a pitoresca viagem demorasse mais dos que os actuais 15 minutos (ou 20 em dias de mar agitado). Ao menos não havia máquinas idiotas. Um bilhete, por favor!

Da minha janela eu vi

Janelar é o verbo que traduz o estar à janela. O meu amigo David Pereira, fotógrafo, captou uma velhota a janelar. A fotografia está agora a concurso aqui. Gostava muito de o ver nos 20 primeiros deste concurso e, quem sabe, ganhar. Para que isso aconteça apelo ao seu voto. Basta votar aqui uma vez por dia. Porque janelar é importante. Significa que o ar ainda se pode respirar.