quarta-feira, 1 de junho de 2011

Elogios rasgados

A qualidade é coisa rara. Andamos tão desabituados de a ver que ficamos sem saber muito bem o que dizer quando a vemos. Foi o que me aconteceu quando tentei dizer ao José Lobo o que tinha achado do seu texto "Silêncios Rasgados". Eu sabia que o mundo interior dele era complexo e duro, mas ainda não tinha visto a prova. O texto do José Lobo serve de base à peça que a equipa do Teatro Estúdio Fontenova tem em cena por estes dias (de 13 de Maio a 5 de Junho (Quinta a Sábado) às 22h e Domingos às 17h) numa moradia desabitada (de finais do século XIX) do Bairro Salgado, mais precisamente na Rua Garcia Perez Nº 36. O tema, a violência doméstica, é retratado de forma cruel, quase grotesca, com todo o desconforto a que temos direito (e que somos convidados a não ignorar), que isto não é coisa para ser fácil de ver. Tudo é cru. Em cena fala-se do homem, do agressor, mas este nunca aparece senão de forma figurada. Fala-se de um homem que é ensaista. Ensaista de porrada. Ensaia tanto que a mulher torna-se múltipla, fala de si como se falasse de outra pessoa e ora abandona a casa ora volta por pena do marido (para desespero do público). A doença, a repulsa, o nojo, a náusea que a mulher-mãe-vítima sente e transporta, contamina a retina do espectador. Este é transportado de quadro vivo em quadro vivo, como se em cada assoalhada da casa vivessem ainda mulheres que não têm direito a ser felizes nem a ser mulheres. Percebi agora o óbvio: este texto funciona porque não é para ser lido. É, como está sendo, para ser interpretado em teatro. As histórias que ouvimos aqui são baseadas em vivências contadas por vitimas reais, fruto de entrevistas que o autor conduziu. O resultado dessas conversas foi esta peça, como podia ter sido um documentário ou uma reportagem. O resultado foi arte. Daquela arte que serve para reflectir e dar esperança. Arte que deve fazer sempre parte da nossa setubalidade. Deixo-vos com um pensamento da Inês Pedrosa, escrito noutro contexto, diferente do desta peça: "A violência é viciante, e não só para os que a exercem. Vicia também os que a sofrem, facilmente se torna uma forma de prazer, porque se confunde com a experiência do abismo, da vertigem, da entrega absoluta - e tanto mais quanto mais precoce for a iniciação."

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