quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Batalhas navais temperadas com sal de Setúbal


É sabido que o famoso sal de Setúbal era transportado por navios mercantes para várias partes da Europa a partir do século XVII e mais tarde, já no século XIX, para os Estados Unidos. Acerca deste último destino diz-nos a investigadora Inês Amorim o seguinte:

O peso das exportações para os Estados Unidos não surpreende. Não obstante o desenvolvimento da exploração salícola nos finais de XVIII, os Estados Unidos precisavam de grandes quantidades de sal para a pesca e salga de carne que ultrapassassem os insucessos das primeiras instalações industriais. A presença de navios americanos nas águas de Cabo Verde, desde a década de 80 do século XVIII, sendo a maioria dos que aportavam à procura de baleia e de sal, comprova ser esta uma das três áreas extra-americanas de abastecimento (Grã-Bretanha – inclusivé do salgema de Cheshire, Europa do sul e Caraíbas).
Sabe-se, hoje, que o sal português embarcado para os Estados Unidos representava, em 1797/1798, 30.76% do total das importações de sal americanas. Depois daquela data a percentagem decresce até 1806, reduzindo-se a zero por cento, segundo estas estimativas mas, em 1813/1814, as importações são retomadas, subindo para 38.73% do total. Não obstante a quantidade de importações aumentarem, em 1815/16, Portugal perdeu peso percentual, representando apenas 16.74% do total do sal importado pelos Estados Unidos. (...) A confirmar o interesse mútuo pela compra e pela venda do sal de Setúbal para os Estados Unidos, em 10 de Maio de 1852 o governo português permitiu que em Setúbal se vendesse sal aos navios americanos pelos mesmos preços que aos navios portugueses (...). [fonte: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/7949.pdf]

Menos conhecida é a história dos perigos reais dos que embarcavam nestas viagens. Depois da partida de Setúbal as tripulações dos navios norte-americanos estavam sujeitas à (boa) vontade dos corsários franceses. Num livro publicado recentemente, em 2009, Greg H. Williams, um especialista em aspectos esquecidos da História, sumariza a razão desta "quase guerra" entre franceses e americanos na descrição do seu livro sobre os ataques dos franceses a navios americanos. Para o autor, durante a era da Revolução francesa e napoleónica, a França viveu períodos de fome e miséria devido a colheitas ruinosas. Legal ou ilegalmente, os navios dos corsários (lembrem-se que um corsário é um dono de um navio tripulado com autorização ou consentimento de um Governo para tomar outros navios) tomaram a carga de vários navios mercantes estrangeiros. Os descendentes dos proprietários ou armadores dos navios fizeram queixa. Melhor: fizeram 6479 queixas envolvendo mais de 2300 navios.

Setúbal aparece aqui como personagem secundária neste conflito, mas vejamos a título de exemplo, o que aconteceu a três navios que partiram de Setúbal, de acordo com a recolha de dados de Williams:
  • A 25 de Agosto de 1800, o navio Pacific, registado em Filadélfia e comandado por Parkins Salter, partiu de Setúbal rumo a Portland, carregado com 1350 tonéis (penso ser a tradução da medida hogshead, mas desconheço a aquivalência) de sal e caixas de limões, para além de barris de vinho pertencente ao comandante. No dia 7 de Setembro, foi mandado parar em pleno Oceano Atlântico (ver mapa em baixo), pelo comandante Pierre Jurien de La Graviére, que liderava a fragata francesa de 36 peças de canhão La Franchise (1). Os franceses saquearam o navio americano, levaram 26 caixas de limões, barris de vinho e tudo o que estivesse "à solta" na embarcação. Toda a gente foi evacuada e o navio foi afundado a tiros de canhão. O comandante Salter escreveu para Nova Iorque a 30 de Setembro: "Eles levaram todos os nossos Quadrantes, Livros, Mapas e quase toda a nossa roupa, pelo que estamos numa situação deplorável. É uma situação difícil esta, de sermos privados dos ganhos de uma vida inteira, por causa de uma acto pirata de um grupo de Ladrões Franceses".

  • Em 1800, a barca Mars registada por John Berry, armador e comandante do navi
    o, partiu de Setúbal com destino a Filadélfia, nos Estados Unidos, carregada com sal e cortiça. Foi capturada por corsários franceses, recapturada pelos britânicos e libertada na Antigua para reparações.

  • Em 1813, o Citizen, um navio americano de 303 toneladas, comandado por James Crowdhill e armado por Washington Bowie e John Kurtz, foi mandado parar pelo capitão Albine Réne Roussin (1781-1854), comandante da fragata La Gloire (2), um navio de 40 peças. O navio tinha partido de Setúbal carregado com sal e tinha como destino a Alexandria. A carga foi tomada pelos francesas e o navio foi afundado. Os armadors Bowie & Kurtz receberam 12 mil dólares da companhia de seguros, mas o navio valia o dobro e por isso apresentaram queixa.




Fica aqui mais um apontamento histórico da cidade de Setúbal, desta feita como narradora não participante dos conflitos do início do secúlo XIX.

Notas:

(1) Esta fragata francesa viria a ser capturada em 28 de Maio de
1803 pelos ingleses que a perseguiram por meio dos navios HMS Minotaur (1793), comandado por Charles John Moore Mansfield, do HMS Thunderer (1783) e do HMS Albion (1802). A fragata La Franchise serviu na armada britânica até 1814 (conferir aqui). O comandante Pierre Jurien de La Graviére teria a sua vingança em 1809, na batalha de Les Sables-d'Olonne, onde se celebrizou por comandar três fragatas de quarenta canhões cada e ter sobrevivido ao ataque destas por vários navios britânicos, entre os quais um navio de 80 canhões e dois de 74. Resultado: os ingleses acabaram por desistir após intensas horas de combate e os franceses, vitoriosos, recolheram à costa. Das três fragatas, duramente bombardeadas, uma foi abatida por ser irreparável e as outras duas foram vendidas.

(2) Este capitão e barão francês é o mesmo que liderou, já como almirante, as operações de uma esquadra francesa (seis navios, três fragatas, uma corveta, dois brigues e uma escuna) que entrou pelo Tejo em 6 de Julho de 1831 obrigando o rei D. Miguel I a reconhecer por escrito a "Monarquia de Julho" francesa. O pintor Charles Philippe Larivière retrata esta cena com o almirante em Lisboa, junto à Torre de Belém. O quadro está em Versailles.

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